Auto-Replicantes

O primeiro a tocar seriamente no assunto da máquinas auto-replicantes, foi o matemático John von Neumann, lá pela década de quarenta. Uma máquina auto-replicante, teria a capacidade de coletar energia e matéria-prima do ambiente, transformando-as em componentes, que seriam montados para criar uma cópia de si mesma.
Neumann estava interessado no problema de forma abstrata mas ao longo do século XX, outros cientistas e escritores continuaram discutindo os possíveis mecanismos e implicações práticas da existência destas máquinas. Por exemplo, na década de 80 a NASA produziu um relatório detalhado de uma estação auto-replicante para extração de recursos na lua. O sistema seria capaz de aumentar exponencialmente sua capacidade na medida em que expandisse. Surgiram especulações sobre a possibilidade de enviar estas máquinas para áreas inóspitas como desertos ou marte, como aparatos de fabricação industrial ou até para despoluir o meio-ambiente.
Na ficção científica, os auto-replicantes povoam diversas histórias. Na minha opinião, uma das mais impressionantes, do escritor Philip K. Dick, foi escrita na década de 50 e conta a história de uma máquina de guerra que desenvolve robôs com o único objetivo de exterminar os humanos, máquinas que evoluem até o ponto em que não é possível distingui-las de uma pessoa comum. A idéia de máquinas que saem do controle e continuam se reproduzindo para destruir a humanidade, permeia muito do imaginário da cultura popular como nos filmes Matrix, O Exterminador do Futuro, os Borgs do Jornada nas Estrelas, etc.
Em um destes cenários, o fim do mundo envolveria uma nuvem de nano-robots auto-replicantes que consumiriam toda a matéria da terra enquanto construindo mais de si mesmos. A idéia foi primeiramente postulada pelo pioneiro em nano-tecnologia Eric Dexler, em 1986, que denominou essa massa de pequenos robots de “grey goo”. A idéia foi copiada sem os devidos créditos no filme O Dia em que a Terra Parou, de 2008.
Ainda estamos muito longe destas maravilhas ou apocalipses auto-replicantes, mas já se pode construir em casa uma máquina (quase) auto replicante, um RepRap.
O nome RepRap é uma abreviação para Replicating Rapid-Prototyper, ou algo como Prototipagem Rápida Replicável. Isso significa uma impressora 3D que pode se replicar e criar cópias de si mesma. Na verdade, como as peças da impressora são compostas de elementos de metal, plástico e madeira, a própria impressora 3D pode apenas construir algumas das partes críticas de um novo equipamento.
A máquina funciona depositando camada sobre camada de plástico, até que o objeto esteja completo. É um processo demorado, mas funciona. A página http://www.reprap.org é um projeto para o desenvolvimento de uma máquina dessas, em código aberto, rodando em Linux. Seus criadores dizem ser possível construir uma por algo em torno de US$ 400,00, o que é uma evolução respeitável, quando as alternativas prontas disponíveis ainda custam na casa de dezenas de milhares de dólares.
Os Repraps fazem parte de uma tendência tecnológica de produção a partir de arquivos digitais, que amadureceu ao longo da década de 90 e está cada vez mais popularizada pelo mundo afora. Ao meu ver esta é uma mudança radical na forma de se criar objetos, que vai desde a produção de livros até edifícios. Surgiram nos últimos anos diversos serviços de prototipagem pelo correio, onde envia-se um arquivo e recebe-se o produto (como por exemplo http://www.ponoko.com/ que faz cortes a laser em diversos materiais). O Brasil, como sempre, ainda é tímido nestas mudanças: o que é feito por aqui é caro e ruim e a importação burocratizada e com impostos extorsivos. Nosso pior problema ainda é a auto-replicação da burocracia pública.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s