A Roda da Memória

Se colocar um livro sobre a mesa e reparar bem, vai perceber que é um dispositivo que opera por movimento radial, com o eixo na espinha do encadernamento. À medida que passamos as páginas, ele fornece o conteúdo da esquerda para a direita. O ângulo total de rotação é aproximadamente 180 graus, ou meia rotação. O livro é uma evolução de outro dispositivo que também funcionava radialmente: o rolo de pergaminho. O rolo é constituído de uma longa faixa de texto ou imagens que tem hastes afixadas nas das extremidades. À medida que o conteúdo é lido, desenrola-se numa haste e enrola-se na outra.

O livro apresentou algumas vantagens em relação ao rolo de pergaminho: é fácil de encontrar qualquer trecho da informação de um ponto a outro, é portátil e não possui necessidade de um suporte resistente ao esforço de mover os rolos, uma vez que o papel não precisa resistir ao esforço de tração das hastes.

Nos últimos séculos assistimos diversas outras tecnologias que utilizam da rotação para arquivar conteúdos diversos. As primeiras máquinas musicais utilizavam um tambor giratório, movido à manivela, com ressaltos. No começo do século XX, apareceram os discos de vinil, onde o som era produzido por uma agulha que passava num prato rotatório.

O cinema pode ser criado por uma longa sucessão de imagens impressas num suporte translúcido por emulsão com óxido de prata que passava rapidamente pela luz, num principio não muito diferente do rolo de pergaminhos. A mesma mecânica, no começo da era informática possibilitou o arquivamento de dados e instruções em rolos de fita magnetizada.

Mais recentemente os cds e dvds, utilizam do mesmo principio do vinil, com a informação convertida em código binário, com a vantagem de não haver desgaste do suporte pelo atrito. Também rodavam a tecnologias obsoletas como as fitas K7, disquetes, cartuchos de backup ou zip disks.

Se você alguma vez abriu um disco rígido, que é talvez o mecanismo de armazenamento de dados mais utilizado no presente, deve ter percebido que apesar externamente parecerem com pequenos tijolos, são também ativados pelo malabarismo de vários pratinhos metálicos. A informação é manipulada por um leitor magnético que flutua a frações de milímetro sobre as partículas aplicadas neste disco. Uma grande parte da informação produzida na ultima década, está rodando, neste momento em que lê o jornal do Café com Letras, entre 5 mil e 10 mil rotações por minuto.

Se parar para pensar sobre estes aparatos de reprodução de informação mais duráveis, vai perceber que quase todos dependem de alguma forma de rotação. Os computadores pessoais, com seus discos rígidos, a partir desta perspectiva, não romperam com a tradição humana de mais de 4000 anos.

Isto até recentemente, quando começamos a usar pen-drives. Esses chaveirinhos de poucos reais que são fabricados na China. Eles são baseados num tipo de memória não-volátil (que não desaparece mesmo quando está desligado) chamada de Flash. A memória Flash foi inventada na década de 80 por um cientista da Toshiba. Nos últimos anos, os Flash-drives alastraram sem dificuldade para o uso cotidiano substituindo uma série de outras tecnologias. Usamos porque é barato e conveniente assim como a roda, sem parar para pensar na radicalidade da mudança.

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