Considerações Gambiológicas

Tenho grande simpatia pela Gambiologia. Gosto do conjunto artístico, no que as obras que participaram das duas exposições são bem heterogêneas, mas principalmente no que ela tem de potencial transformador e subversivo.

Nas duas exposições, presenciei crianças e adultos, com olhares assombrados, divertidos e, vez por outra brincando que voltariam para casa para fazer algo parecido. O prazer de fazer uma gambiarra é contagiante e libertador, num mundo onde os produtos para consumo são cada vez mais fechados e desenhados para que os “usuários” não tenham acesso as suas entranhas e conhecimento de como são feitos.

As construções da Gambiologia são precárias. Tem que ser, porque são colagens de peças antigas, recicladas, torcidas. Durante as montagens, quando sobrava algum tempo ia visitar esses intrépidos gambiologos suados, meio nervosos porque alguma parte não estava funcionando, tinha que ser soldada, colada com cola quente, amarrada de alguma forma. Em uma, o cara veio de longe e não conseguiu por para funcionar mesmo.

 

 

Fred Paulino me convidou para a primeira exposição em 2010,  em parceria com o Pedro Morais para fazer a expografia. Era uma situação um pouco informal: junto a exposição das obras, no mesmo espaço, ocorreriam oficinas e ajudaríamos a criar o suporte para algumas obras na montagem. A organização tinha conseguido doações de alguns refugos eletrônicos. Criamos um projeto com layout e acompanhamos a montagem. Pedro construiu uma instalação na escada de acesso usando lampadas fluorescentes e criei um tapete grampeando teclados no chão.

Na véspera, a organização recebeu uma enorme pilha de monitores que foram deixados na entrada por engano. Não sabíamos o que fazer com aquele monte e nem se os monitores estavam funcionando. Resolvi trazer um computador velho e um divisor de sinal que tinha encostado no escritório e coloquei um video de um olho piscando para ir testando cada um. A medida que alguns funcionavam, fui organizando os cabos sobre a pilha. Nasceu a minha primeira obra Gambiológica. Essa primeira exposição coletiva foi mais rústica,  improvisada e espontanea. O lugar tambem ajudava: o prédio do 104 tecidos, que era um prédio industrial decadente recentemente convertido em centro cultural.

A instalação “Ainda estão Vivos” foi montada em mais duas ocasiões: no Festival de Arte e tecnologia Continuum, em Recife e no Sesc, na virada cultural de São Paulo, em 2013. Nas duas vezes, a conversa era divertida porque os organizadores dos festivais esperavam que levasse a tal obra e explicava que eu poderia montar desde que providenciassem uma pilha de monitores descartados de algum fornecedor local: não fazia sentido levar a minha pilha daqui. Tinha que pedir para que não arrumar ou limpar os monitores.

Passaram-se 4 anos entre a primeira e a segunda exposição da Gambiologia. A Segunda, mais organizada no espaço da OI Futuro, com uma melhor estratégia de divulgação e uma combinação que contemplava alguns artistas notórios como Arthur Bispo do Rosário. Já desta vez, Fred me convidou como artista e trouxe o Carlos Teixeira para o projeto expográfico, que foi feito com estrutura de metalon e telas de tipos variados, dando uma transparência para o conjunto das obras que propiciava uma visão interessante do todo.

Os dois objetos foram criados na semana anterior a abertura – a matéria prima estava ali na oficina esperando uma oportunidade: alguns brinquedos chineses, fios e ventiladores velhos. O primeiro objeto, chamado pulmão era uma série de ventiladores ligados a plásticos prateados, controlados por um arduino e um relá que eu aproveitei de um termostato. A ideia era fazer alguma coisa que parecesse viva com o que eu tinha a mão. O segundo, composto de vários brinquedos Chineses de pelúcia hackeados, pendurados pelo pescoço numa encenação de um abatedouro robótico. O vistante tinha a opção de apertar uma tecla e acionar os brinquedos.

Acho que a Gambiologia compartilha um pouco o gosto pela fabricação e pela tecnologia desta nova geração dos Makers, mas existem tambem algumas particularidades: os Gambiologos, ao meu ver, estão mais preocupados com o efeito mágico, com a engenhosidade por si mesma, do que com o produto e sua utilidade: nisso buscam atingir um estatuto de arte e desviam dos complicantes da engenharia, navengando soltos no mundo da originalidade. Quem já teve que montar um circuito eletrônico sabe que se pode usar a cor dos fios e luzes como indicadores que ajudam a organizar o trabalho. Para os gambiologos esse amontoado colorido tem uma utilidade formal que é prioritária. Por outro lado, de uma forma desajeitada o poder subversivo destas obras Gambiarradas não está na sua pretenção estética, mas justamente na engenhosidade da solução técnica. O objeto Gambiológico oscila assim perigosamente entre uma utilidade precária e uma pretenção artística suspeita.

No Brasil, acho que esta é uma saída engenhosa, uma estratégia de sobrevivência. Históricamente o Brasil é mais capaz de criar excentricidades do que bons modelos. O trabalho manual, antes relegado aos escravos e imigrantes dificilmente entra na ordem do ensino superior. O pensamento, destituido da obrigação do fazer fica livre, mas improdutivo. Os Gambiologos vão se apresentar como artistas, os personagens excêntricos na cultura popular e encontram uma certa familiaridade: mas quem são estes artistas que professam eletrônica como ciência oculta e ferros de solda como  intrumentos de arte? Estes cientistas malucos que vão buscar no mais ordinário arame que segura uma porta a expressão de pura criatividade. Ao contrário da arte que separa, colocando o artista na posição de grande criador, a Gambiologia mantem um contato próximo: a improvisação de todo o dia  pode ser arte. A proxima etapa natural, alem das exposições, foi tambem a revista que ajuda a propagar suas idéias e interesses. Os Gambiologos vão trilhando um caminho  em que não se sabe o quanto estão levando a sério: é o caminho da brincadeira, da imaginação infantil do explorador cientista. Assim conseguem acessar este lugar comum entre mágica e ciência e talvez desencadear o desejo de se criar máquinas maravilhosas, de usos inimagináveis, nas próximas gerações. O que mais se pode esperar da arte?

Advertisements

One thought on “Considerações Gambiológicas

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s