Aventuras Tecnológicas: Como se você desse a Mínima.

Nesta coluna tenho evitado falar de arquitetura, apesar de esta ser a minha profissão e o assunto com o qual gasto a maior parte do meu tempo acordado pensando, praticando e discutindo a respeito. De fato, nos últimos anos tenho lido menos livros sobre arquitetura em relação a outros assuntos que tem chamado mais atenção, porque me parecem mais urgentes ou mais úteis do que uma nova monografia de algum neo-modernista com belas fotografias ou ilustrações hiper-realistas. Ainda, vez por outra, procuro algum livro sobre desenho de arquitetura, ou desenho de forma geral, mas este é um assunto em extinção, com poucos novos títulos, e um assunto para um artigo futuro.

Dois tipos de livros relacionados à arquitetura ainda ocupam minha lista: livros técnicos e outros sobre arquitetura móvel, efêmera, temporária.

Tenho a impressão que na arquitetura sem pretensão de longa duração existe uma relação mais próxima do arquiteto com tecnologias diferentes, maior abertura para experimentações e um peso menor em relação à história de um sistema em que a fabricação e o trabalho estão cada vez mais alienados da criação e das necessidades reais das pessoas. Por outro lado, muitas vezes as arquiteturas efêmeras estão ligadas a festas, eventos etc, e o caráter provisório normalmente é associado à falta de preocupação, aos cenários de fantasia, ao desperdício. Mas isso nem sempre é assim.

Há algum tempo atrás, topei com um livro que me deixou muito impressionado: Design Like You Give a Dam – Architectural Responses to Humanitarian Crises. Traduzido: Projetando como se você desse a Mínima – Respostas Arquitetônicas para Crises Humanitárias.

O livro conta historia da criação de uma organização não governamental chamada Arquitetura para Humanidade, em inglês, Architecture for Humanity, que promoveu um concurso para sugestões de habitação em Kosovo, na época da guerra. Para surpresa de seus fundadores, mais de duzentos arquitetos do mundo todo responderam. Em poucos anos a organização já promovia concursos com mais de 1400 respostas. O objetivo era criar “uma rede aberta de soluções inovativas.” e conectar os profissionais com projetos reais, nos locais onde são necessários.

A partir daí, vê-se uma coletânea de obras construídas e projetos pelo mundo todo, de habitações e centros comunitários em locais de crise. Construções em áreas alagadas ou no deserto, atingidas por miséria ou guerras. Os projetos lidam com áreas como a zona atingida por guerras, Aids na África, terremotos, tsunamis, sem-casas nas grandes cidades americanas. A durabilidade das habitações é também é variável: algumas são refúgios imediatos para situações de calamidade, algumas são fabricadas como transição para situações mais permanentes e outras são soluções definitivas.

As soluções técnicas também são variadas: vão desde tendas, sistemas móveis, moradias para sem-casas feitas com material de demolição, construções de super-adobe, construções de sucata, etc.

Muitos dos projetos apresentados no livro mostram engenhosidade e sabedoria em transformar poucos recursos em locais habitáveis, dignos. Muitas vezes, os projetos são soluções de design de pequenos objetos que tratam de problemas críticos na vida destas pessoas, que nos parecem simples porque não precisamos preocupar com isso diariamente: como transportar, limpar e armazenar água, como manter as comunidades limpas, gerar energia, proteger contra o sol ou o frio.

Uma coisa que assusta, é a dimensão dos números: a estimativa da ONU é de que existiriam 25 milhões de refugiados em pelo menos 49 paises do mundo, onde 70 a 80% são mulheres e crianças. A média na duração da condição de refugiado é entre 9 a 17 anos. 14 milhões correm grande risco através de violência. 600 milhões de pessoas, morando em cidades e 1 bilhão de pessoas em áreas rurais, habitam locais superpovoados e de baixa qualidade. 1 a cada 6 habitantes no mundo hoje, vive em favelas. 100 milhões de crianças vivem e trabalham nas ruas, 40 milhões somente na América Latina.

A meu ver, qualquer tentativa verdadeira de aproximar da maior demanda por arquitetura hoje no mundo, deve lidar com a enormidade deste problema.

Se quiser saber mais a respeito: http://architectureforhumanity.org/

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