Aventuras Tecnológicas: Robots

Isaac Asimov escreveu certa vez, que a diferença entre suas histórias de robot e as ficções anteriores era que ele tinha sido o primeiro autor a não transforma-los em símbolos de alguma outra coisa: suas máquinas não eram a projeção da vontade humana em superar a criação divina, como no Frankenstein de Shelley ou instrumentos da desumanização da classe proletária, como em Metropolis de Fritz Lang.

Ele afirmava que sua maior preocupação era apenas explorar os mecanismos do funcionamento dos robots e suas implicações ao relacionar com os humanos.

Asimov é talvez o único autor de ficção, que se pode dar o crédito pela invenção de uma ciência, a Robótica. A palavra robot, que vem do Tcheco, significa “servo, trabalhador” e foi utilizada pela primeira vez para descrever uma máquina em 1921, pelo autor de ficção Karel Capek. Mas foi apenas na década de 40 que Asimov imaginou uma ciência que lidaria com estudo dos dispositivos inteligentes e enunciou um conjunto de regras que possivelmente estarão impressas no cérebro positrônico da primeira inteligência artificial: as três leis da robótica.

Este conjunto de diretrizes, organizadas em ordem de prioridade, determinam que um robot não pode ferir ou deixar que um humano seja ferido, que deve obedecer as ordens de um humano, desde que isso não entre em contradição com a primeira lei e que deve se auto-preservar, desde que isso não entre em contradição com as duas leis anteriores.

O que acho fascinante na ficção de Asimov é que apesar destes mandamentos tão sintéticos e articulados num sistema fechado e sem ambigüidades, suas histórias de robot são contos policiais: são casos sobre assassinatos, acidentes, mentiras. Normalmente acontece alguma coisa errada que provoca uma situação crítica de vida ou morte. Alem disto, na maior parte das vezes, seus personagens humanos são engenheiros e cientistas, que solucionam a crise apenas utilizando do seu conhecimento das leis.

O que está implícito na sua obra é o entendimento de que não bastariam leis precisas para que suas máquinas pudessem funcionar corretamente no mundo: o que tornaria uma máquina algo inteligente é a capacidade de interpretar as leis, criar prioridades e julgar a realidade para tomar decisões.

Acho que Asimov não estava contando a história toda: seus robots não eram apenas objetos inanimados, frutos do desenvolvimento natural da técnica. A ficção de Asimov não trata somente das implicações de seus mecanismos internos, mas principalmente da projeção de um código de conduta para a criação de qualquer objeto pelos cientistas. Não é possível se escrever sobre aparatos da criação humana sem que eles simbolizem alguma outra coisa. Talvez não tenha sido uma coincidência que suas primeiras histórias de robot tenham sido publicadas durante a II guerra mundial e apenas alguns anos antes do lançamento das bombas atômicas no Japão, em 1945.

Assim, se substituir a palavra “robot” por uma outra, por exemplo, a palavra “edifício” ou “cadeira”, vai ver que as regras ainda fazem muito sentido: 1. uma cadeira deve preservar a saúde e o bem-estar de um ser humano. 2. Ela deve servir (ser útil) aos seres humanos, desde que isso não entre em contradição com a primeira lei. 3. Uma cadeira deve se preservar (ser durável) desde que isso não desrespeite as duas regras anteriores.

O autor de ficção Cyberpunk Bruce Sterling afirma que um futurista não consegue vencer o futuro, mas apenas fazer predições sobre o presente. Ele não deve anunciar alguma maravilha extraordinária, mas reconhecer alguma estranheza, que estará destinada e se tornar um lugar comum. Nada fica obsoleto tão rápido quanto o futuro e a obra dos autores de ficção científica, dura apenas o intervalo entre a imaginação e a prova inevitável de que o presente é imprevisível.

Na obra de Asimov, como em outros autores que trataram de máquinas inteligentes, os robots assumiam geralmente uma forma humana e um raciocínio que também mimetizava o pensamento humano. Acho que não passou pela cabeça da maior parte destes autores nascidos na primeira metade do seculo XX, que a revolução da robótica aconteceria pelo espalhamento de sensores e servo-motores por todos os lados, e que a inteligência programada, não seria tão parecida com a humana, mas dedicada a execução de tantas pequenas tarefas repetitivas, em que o julgamento pode ser programado. Assim nossos robots de hoje, são as impressoras, interfaces gráficas, alarmes inteligentes, sistemas de auto-foco nas câmeras, reconhecimento de voz, etc.

Apesar disto, obras de ficção científica como as de Asimov e seus robots, podem ser duráveis justamente porque não tratam apenas de ciência e máquinas espetaculares, mas da prospecção de uma relação possível dos seres humanos com suas criações.

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